Portugal, como um dos países europeus com maior percentagem de população envelhecida, enfrenta a necessidade premente de repensar os modelos de apoio aos adultos mais velhos, valorizando a sua autonomia e promovendo uma inclusão efetiva que reconheça o seu valor intrínseco e a sua contribuição social.

O Paradigma da autonomia

A autonomia, enquanto capacidade de autodeterminação e gestão da própria vida, constitui um pilar fundamental da dignidade humana. Para os adultos mais velhos, a manutenção desta autonomia representa não apenas uma questão de conveniência, mas um fator determinante para o bem-estar físico e psicológico, para a preservação da identidade e para a continuidade de uma vida com significado.

Os estudos mais recentes evidenciam que a permanência no ambiente familiar, quando devidamente apoiada, contribui significativamente para a preservação das capacidades cognitivas, para a estabilidade emocional e para a qualidade de vida global dos adultos mais velhos.

A institucionalização, frequentemente considerada como solução primária, deve ser entendida como uma entre várias possibilidades, reservada para situações específicas onde o apoio domiciliário se revela insuficiente.

A valorização da autonomia implica reconhecer que o processo de envelhecimento é heterogéneo e individualizado, rejeitando visões estereotipadas que tendem a infantilizar ou a homogeneizar os adultos mais velhos. Cada pessoa apresenta diferentes necessidades, capacidades, aspirações e preferências que devem ser respeitadas e promovidas.

Numa sociedade em constante transformação, o envelhecimento populacional representa, simultaneamente, um triunfo do desenvolvimento humano e um desafio para as estruturas sociais contemporâneas.

A exclusão – Um fenómeno multidimensional

Apesar dos avanços significativos nas políticas sociais, a exclusão dos adultos mais velhos persiste como um fenómeno complexo e multifacetado que compromete a sua participação plena na sociedade. Esta exclusão manifesta-se em diversas dimensões que frequentemente se sobrepõem e reforçam mutuamente:

  • Exclusão Digital

No atual contexto de digitalização acelerada, os adultos mais velhos enfrentam obstáculos significativos – desde barreiras de acesso, muitos não dispõem dos recursos económicos para adquirir tecnologia ou contratar serviços de internet. Isto, aliado às limitações de competências, com ausência de literacia digital, dificulta a utilização de serviços essenciais cada vez mais disponíveis, exclusivamente, online.

Além disso o ritmo acelerado da inovação torna difícil a atualização de conhecimentos e competências.

Esta exclusão digital traduz-se em consequências concretas: dificuldade no acesso a serviços bancários, impossibilidade de marcação de consultas médicas online, limitações na comunicação com familiares distantes, e incapacidade de beneficiar de oportunidades de aprendizagem ou entretenimento disponíveis na internet.

  • Exclusão Relacional e Comunitária

Por outro lado, o isolamento social constitui uma realidade particularmente preocupante, desde as dissoluções de redes sociais, como a reforma, a viuvez, a mobilidade geográfica dos familiares e o falecimento de amigos contribuem para o estreitamento das relações sociais.

Por vezes, as barreiras arquitetónicas e urbanísticas, isto é, edifícios sem acessibilidade, transportes públicos inadequados e espaços urbanos hostis, limitam a participação na vida comunitária. Está provado que 1 em cada 2 pessoas, consciente ou inconscientemente fazem discriminação etária, i.e., atitudes preconceituosas baseadas na idade (idadismo), o que se manifesta em diversos contextos, desde o mercado de trabalho até às interações quotidianas.

  • Exclusão Económica

A vulnerabilidade financeira afeta significativamente a qualidade de vida. Desde, pensões insuficientes, uma vez que muitos adultos mais velhos sobrevivem com rendimentos abaixo do limiar de pobreza, limitando o acesso a bens e serviços essenciais, às dificuldades habitacionais – a manutenção de habitações próprias ou o pagamento de rendas elevadas absorve uma percentagem substancial dos rendimentos disponíveis.

O aumento da exploração económica, com situações de burla, fraude e apropriação indevida de bens por familiares ou terceiros constituem, também, uma realidade preocupante.

  • Exclusão dos Serviços e Cuidados

Aliado aos referidos acima, o acesso inadequado a serviços essenciais compromete a autonomia, desde os serviços de saúde, com listas de espera prolongadas, consultas de curta duração, digitalização de todos os processos e abordagens fragmentadas que não consideram a complexidade do envelhecimento.

Os transportes que, quando privados e localizados, são dispendiosos ou as redes de transportes públicos com cobertura insuficiente, horários desadequados e veículos não adaptados. Além disso, a falta de serviços de proximidade, com o encerramento de estabelecimentos comerciais, agências bancárias, postos de correio e outros serviços, em todas as zonas.

  • Exclusão Cívica e Política

Também a exclusão cívica e política conduz à diminuição da participação nos processos de decisão, desde a participação política reduzida, com um menor envolvimento em estruturas partidárias, associativas e cívicas, apesar de taxas de participação eleitoral relativamente elevadas.

A autonomia e inclusão dos adultos mais velhos

A autonomia e inclusão dos adultos mais velhos não constituem meras aspirações abstratas, mas direitos fundamentais cuja concretização exige um compromisso societal. Numa sociedade verdadeiramente inclusiva, o envelhecimento não representa um problema a resolver, mas uma fase da vida a valorizar e dignificar.

A promoção da autonomia implica necessariamente o combate às múltiplas formas de exclusão que afetam os adultos mais velhos, através de políticas públicas adequadas, da transformação das práticas institucionais e da mudança das representações sociais sobre o envelhecimento. Este é um desafio coletivo que convoca todos os atores sociais – desde o Estado às organizações da sociedade civil, passando pelas empresas, comunidades locais e cidadãos – para a construção de uma sociedade para todas as idades.

O futuro de uma sociedade que envelhece dependerá, em grande medida, da nossa capacidade de reconhecer e valorizar a diversidade das experiências de envelhecimento, de adaptar os ambientes físicos e sociais às necessidades emergentes, e de garantir que todos os adultos mais velhos possam continuar a viver com dignidade, significado e plena participação social.

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